Parábola Brazil
O Alerta da "Brasilização"
A ECONOMIA MUNDIAL oferece muitos contos de advertência. A inflação da Argentina mostrou o perigo de tratar um banco central como um caixa eletrônico. A estagnação da Itália mostra o lado negativo de aderir a uma união monetária com altas dívidas herdadas. A Grã-Bretanha sofreu com o Brexit, que ergueu barreiras comerciais com seus vizinhos mais próximos. Mas o alerta mais oportuno para muitas das grandes economias do mundo vem do Brasil.
Como relatamos, o Brasil tem um crescimento econômico decente, um banco central independente e seu orçamento primário — ou seja, excluindo o pagamento de juros — está quase equilibrado. Sua dívida líquida, em 66% do PIB, é alta para os padrões de mercados emergentes, mas baixa para os padrões do mundo rico.
O Brasil, no entanto, tem um grande problema: seu governo deve pagar taxas de juros estratosféricas para custear suas dívidas. Controlar a inflação exigiu que o banco central fixasse as taxas de curto prazo em 15%. Como resultado — e apesar de estar próximo do equilíbrio primário — o governo provavelmente tomará emprestado cerca de 8% do PIB por ano para pagar sua conta de juros. Fechar o déficit por meio da austeridade é improvável; o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que faz campanha para a reeleição em outubro, afrouxou os cordões da bolsa. A menos que as taxas de juros caiam muito, a dívida pública irá disparar.
O Contraste Fiscal
A situação fiscal do Brasil coloca os orçamentos do mundo rico em evidência. Você pode pensar que os governos em lugares mais ricos estão sob pressão fiscal, mas os Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Itália ainda desfrutam de custos de empréstimos na casa de um dígito (baixo a médio). Suas dívidas se estabilizariam se apenas equilibrassem seus orçamentos primários, ou chegassem perto disso. Em contraste, o Brasil provavelmente precisaria manter um superávit primário de cerca de 5% para manter suas dívidas estáveis, caso as taxas de juros não caiam.
Os formuladores de políticas ocidentais devem considerar por que as taxas de juros são tão altas no Brasil. A resposta reside em uma combinação de fatores:
• Instituições instáveis: Apesar de gozarem de proteções formais, as instituições balançaram durante a tentativa de golpe do presidente Jair Bolsonaro em 2022.
• Memória inflacionária: A inflação tem um "pavio curto", em parte devido ao legado da hiperinflação dos anos 80 e início dos 90, e à crise econômica de meados da década de 2010.
• Trajetória orçamentária: O governo gasta 10% do PIB com pensões e aposentadorias. Sem reformas, até 2050 gastará mais com previdência do que países mais ricos e envelhecidos.
Nota: As aposentadorias são protegidas pela Constituição, que exige, por exemplo, que quando o salário mínimo sobe, os aposentados também recebam mais. Esse domínio extraordinário dos pensionistas sobre o orçamento dificulta o equilíbrio das contas e exclui outros gastos mais valiosos.
Sintomas Globais
O diagnóstico deve preocupar o mundo rico, que mostra sintomas precoces de Brasilização. As instituições americanas estão sofrendo. O presidente Donald Trump politizou o Departamento de Justiça, anseia controlar o Federal Reserve e cogita federalizar as eleições de seu país. Após as grandes altas de preços que se seguiram à pandemia, a inflação é um risco maior do que em décadas recentes. E os gastos com previdência e saúde crescem à medida que as populações envelhecem.
Se isso elevar as taxas de juros, os dilemas orçamentários de hoje parecerão triviais. Muitos países ricos estão se esforçando para encontrar um extra de 1% ou 2% do PIB para gastos com defesa. Imagine se tivessem que encontrar isso duas vezes mais para os juros da dívida. Pode parecer dolorosamente difícil, em um mundo populista, prometer inflação baixa e gastar menos com os idosos. Mas isso não é nada comparado à escolha agonizante que paira sobre o Brasil: entre uma austeridade profunda e uma terrível espiral de juros da dívida.
* The Economist -14.02.2026

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