Deus me proteja de mim…

Distopias catarinenses: “humanidade” pelo cão e indiferença com o racismo humano.




O Estado de Santa Catarina é hoje o “estado-maior do bolsonarismo”. No segundo turno de 2022, Bolsonaro obteve cerca de 69,67% dos votos válidos no Estado. Também é um Estado onde proliferam células neonazistas, cujos valores são manifestados sem o menor pudor em várias instâncias públicas (prefeituras, câmaras de vereadores, assembleia legislativa e governo do Estado), nas instituições de ensino e nas relações sociais e pessoais.


Originalmente terra dos indígenas Carijós, Santa Catarina foi invadida pelos europeus em 1526, por Sebastião Caboto. Os indígenas foram escravizados, dizimados e quase exterminados — os que sobraram são alvo de racismo e nenhum respeito à sua cidadania. Estão nestas situações os também indígenas Kaingang, Xokleng e Guarani.


Nos anos de 1920 e 1930, o estado flertou com o nazismo, quando foi considerado uma das maiores adesões ao Partido Nazista fora da Alemanha. A primeira célula do Partido Nazista fora da Alemanha foi criada em Timbó, Santa Catarina, em 1928, espalhando-se rapidamente para cidades como Blumenau. Na época, Santa Catarina filiou 528 membros ao partido nazista, ocupando a segunda posição no Brasil em números absolutos. Na educação, as escolas teuto-brasileiras difundiam a ideologia nazista em seus materiais didáticos.


O imaginário da exclusão, que encontrou terreno fértil no Estado no passado, parece resistir ao tempo, reaparecendo sob novas formas. Avançando para os dias atuais, em novembro de 2025, Topazio Neto (PSD), prefeito de Florianópolis, criou posto de controle de entrada de pessoas na capital. Segundo ele, seria uma forma de impedir que pessoas não desejáveis adentrassem o município, decidindo que elas fossem devolvidas às suas cidades de origem. É como se Florianópolis criasse um posto de fronteira, desrespeitando o direito de ir e vir que a Constituição brasileira garante. O prefeito acredita que está protegendo a cidade contra “indivíduos indesejáveis”, pertencentes a grupos étnicos bem definidos. Florianópolis já mandou de volta às suas cidades de origem mais de 500 “pessoas indesejáveis”.


Dentre tantos outros atos higienistas e racistas, que vemos nas notícias relacionadas ao Estado, o governador Jorginho Mello sancionou lei que proíbe cotas raciais em universidades estaduais catarinenses. Segundo ele, as punições previstas para quem descumprir a nova legislação são multa de R$ 100 mil por edital e corte de repasses públicos. A explicação para isso é que “Santa Catarina tem mais brancos do que negros”.


Em fevereiro de 2025, o vereador negro Teodoro Adão (MDB), da cidade de São João Batista, no Vale do Rio Tijucas, em Santa Catarina, denunciou que crianças brancas e negras estavam sendo separadas em salas de aula distintas em uma creche. As denúncias foram feitas por familiares, levando o vereador a visitar o local e afirmar ter encontrado aproximadamente 24 crianças separadas em dois grupos em salas diferentes, divididas pela cor da pele.


Outro caso que denota xenofobia e racismo é do vereador Mateus Batista (União Brasil), de Joinville. Ele subiu na tribuna da Câmara do município, em agosto de 2025, para defender o projeto que propõe controlar a migração de pessoas, com foco específico em moradores do Norte e Nordeste, para Santa Catarina. O vereador defendeu a criação de um “Centro de Apoio e Controle Migratório”, que exigiria comprovação de residência em até 14 dias para quem chegasse à cidade, sugerindo que aqueles sem comprovação fossem “mandados embora”. Mateus Batista alegou que o fluxo migratório de estados do Norte e Nordeste poderia transformar Santa Catarina em um “grande favelão”. Ele também chamou o Estado do Pará de “lixo”, em um discurso na Câmara. Vergonhosamente, nada sofreu pelo ato cometido.


Até o momento, este artigo tem me revirado os intestinos. Os casos de racismos estruturais e institucionais são infindáveis. Basta fazer uma pesquisa nos sites de busca da internet. Sim, Chico César diz muito com a letra de sua música: “Deus me proteja de mim. E da maldade de gente boa. Da bondade da pessoa ruim…”.


Uma sociedade tão doente tem legitimidade para contestar a morte de um cão? Uma sociedade que naturaliza o racismo e a higienização não é hipócrita ao lamentar o assassinato de um animal? O assassinato do cão Orelha, em 4 de janeiro de 2026, na Praia Brava, em Florianópolis, e as manifestações de comoção parecem uma ironia, um ultraje às pessoas negras, indígenas, nordestinas e nortistas que são diariamente violentadas por este tipo perverso de Estado.


As comoções pelo assassinato de Orelha são uma máscara de falsidade fantasiada de preocupação com a vida. Um ambiente racista é capaz de tudo, inclusive de matar barbaramente animais e exterminar a natureza. Não adiantam passeatas para expressar a revolta do assassinato canino, se o racismo impera livremente em órgãos públicos e nas relações intrapessoais.


O silêncio dos “inocentes” também é preocupante, considerando que assistem impassíveis a pessoas negras, indígenas, nordestinas e nortistas sendo atacadas em sua dignidade e cidadania sem um único gesto de contestação e comoção.


“Deus me proteja de mim. E da maldade de gente boa. Da bondade da pessoa ruim…”


Por Ricardo Alexino, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP


Sempre que escrevo um artigo, inicio pelo título e penso a trilha sonora que o acompanha.

No caso deste texto, a trilha sonora que me veio à mente foi a música de Chico César, Deus me proteja. Parte da letra diz: "Deus me proteja de mim. E da maldade de gente boa. Da bondade da pessoa ruim..." Portanto, esta é a trilha sonora deste artigo.



https://jornal.usp.br/artigos/distopias-catarinenses-humanidade-pelo-cao-e-indiferenca-com-o-racismo-humano/



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