Horácio sendo Horácio.
No livro SALTO VELOSO (RE)CONTA SUA HISTÓRIA. “QUEM SOMOS. DE ONDE VIEMOS”, A saudosa Alzira Scapin coletou um testemunho do “NEGO HORÁCIO”
“Antigamente muitos caboclos que moravam lá pelas bandas de Palmas ou mesmo em Água Doce faziam roças no Veloso, pois naquela época a terra não tinha dono; só diziam que era da 'Companhia'. A caboclada plantava milho e depois vendia para os fazendeiros que faziam a ceva dos porcos. O milho era levado da roça até os galpões das fazendas no lombo de mulas. Isso aconteceu durante muitos anos, assim os caboclos ganhavam um dinheirinho."
"Eu conheci o velho Veloso, o Antonio Veloso pai. Sim, porque tinha o Antonio Veloso Filho, que também morou nessas bandas por muito tempo. O velho Veloso era um homem baixote, meio gordo, falava pouco e trabalhava bastante. Ele tinha um rancho ali, logo abaixo da Colônia Brinco, onde morava com a família. Lutava com roça e ainda ganhava algum dinheiro com a tropa de mulas, carregando sal para os fazendeiros de Palmas. Naquela época tinha um mundão de boi nas fazendas e precisava de muito sal. O velho Veloso ia comprar em Lages e demorava muitos dias na viagem. Ele era compadre de meus pais e as nossas famílias se visitavam bastante. Lembro bem dele; era calmo e muito respeitado por todos. Morreu durante uma febre muito grande que deu por essas bandas; uma febre que matou muita gente; isso faz mais de 80 anos."
"Nos bailes de antigamente, o salão era dividido no meio com uma corda ou mesmo um barbante. De um lado dançavam os negros e do outro os brancos. Se um se metia no 'terreno' do outro, dava o maior dos entreveros. A gente não achava que isso era o tal de 'racismo' que essa gente de hoje tanto fala. A gente achava que isso era mesmo sinal de respeito que uns tinham com os outros."
"Meus pais conheceram o monge José Maria e sempre falavam que ele era homem bom e de muita sabedoria; andava por esses campos todos. Ensinava as pessoas a rezar, sabia benzer e dava remédios de ervas. Tinha sempre um cajado, roupas velhas, uma capa e, às vezes, andava descalço; outras vezes com 'alpercatas' rasgadas. Dormia no campo e depois abençoava o lugar; sabia batizar as crianças. Tudo o que ele falou está acontecendo, porque ele sabia das coisas; ele era um homem santo."
"Bugre tinha muito por aqui (referindo-se a Salto Veloso, Palmas e Água Doce). Eles não eram mansos, mas, também, foram os brancos que deixaram eles brabos, tirando a terra deles. Os bugres se vingavam queimando as plantações e espantando o gado. Também matavam muitas pessoas, principalmente crianças. Meu pai era muito amigo deles e costumava ir nas choças que ficavam bem retiradas, nos campos ou no meio do mato fechado."
"Tropeei muito porco e muito boi por essas estradas do Veloso. Tinha dias que a gente passava por ali com mais de mil porcos. Boi, então, nem se fala. Uma vez arrebanhamos nos campos do Rio Grande do Sul e aqui nas bandas de Palmas e Água Doce mais de 6 mil mulas. Descemos em direção a São Paulo, sempre pelos picadões; levamos três meses entre ida e volta."
"Antigamente os fazendeiros de Palmas e Água Doce, quando chegava o inverno, que era muito brabo, levavam o gado lá para baixo, nos matos do Veloso, onde era mais quente e tinha pasto e pinhão; assim os bichos não passavam muito frio e encontravam bastante comida. Os fazendeiros naquela época tinham tanto dinheiro que mandavam até no governo. Muito dono de fazenda acendia charuto com nota de dinheiro graúdo."
O cantor Wilson Paim fez uma canção homenageando o protagonista de tão corajosa época, cujo texto abaixo vai:
TRIBUTO A HORÁCIO LIMA
Num corredor, lá se vai o piazito
Tocando gado a assoviar despacito
Estrada a fora segue levando o seu sonho
O menino risonho se vai ao tranquito.
O tempo passa os cabelos prateados
Olhar cansado e histórias pra contar
O velho Horácio juntou sua boiada
Na hora marcada no céu foi tropear.
Num era boi que ecoa longe
Na vida longa como se assim fosse
É Horácio Lima que deixou saudade
De Erciliópolis a Água Doce.
O tempo passa e o clarão da aurora
Num lamento chora com o vento agoureiro
No corredor, não se enxerga a boiada.
No silêncio da estrada,
Não mais se houve o tropeiro.
O velho Horácio lá de cima abençoa
O progresso que hoje trás novos tropeiros
O padroeiro e hoje amigo ele intercede
São Cristóvão protetor dos caminhoneiros.
Abaixo segue um apanhado do tropeiro de outras épocas:


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