Os dois Brasis





Guaribas e Nova Pádua

Brasileiros de todos os perfis são atraídos por um tipo mais moderado de política.

O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. Graças ao seu passado colonial e escravocrata, também é um dos mais miscigenados. Atravessá-lo pode dar a sensação de visitar continentes diferentes. A floresta amazônica dá lugar a desertos e a litorais com palmeiras no Nordeste. A maior parte da população é mestiça. Ao voar para o Sul, surgem vilas marcadas por casas em estilo enxaimel e vinhedos, construídos por descendentes de imigrantes alemães e italianos. São Paulo é a capital mundial dos helicópteros, onde elites se deslocam entre apartamentos de luxo em cerca de 2.000 voos diários. Enquanto isso, em Santarém, na Amazônia, 96% dos moradores não têm saneamento básico.

Seria de se esperar que tais disparidades gerassem profundas divisões políticas. Na década de 2010, após três décadas de democracia, o Brasil tornou-se mais polarizado. A principal força política, o Partido dos Trabalhadores de Luiz Inácio Lula da Silva, foi abalada por escândalos de corrupção, abrindo espaço para a ascensão de Jair Bolsonaro, um populista de direita que se tornou presidente em 2019. O confronto entre ambos e seus apoiadores tem definido a política brasileira desde então.

Em 2025, por um breve momento, parecia que o país poderia seguir em frente, quando Bolsonaro foi preso por planejar um golpe. Com eleições gerais previstas para outubro, muitos imaginaram que ele apoiaria um candidato moderado fora de sua família. Mas ele escolheu seu filho, Flávio, senador. A esquerda, por sua vez, se alinha em torno de Lula, agora com 80 anos, em sua sétima campanha presidencial. Uma eleição divisiva se aproxima.

Para entender o que está afastando os mais de 213 milhões de brasileiros, a revista The Economist visitou municípios que votaram de forma mais contundente em Lula ou em Bolsonaro nas eleições de 2022. Como esperado, os eleitores discordam fortemente sobre a prisão de Bolsonaro e sobre o papel do Estado na economia. Mas também há pontos de consenso: todos desprezam a corrupção generalizada na política; a maioria é profundamente religiosa; muitos acreditam que reformas são necessárias para conter o poder do Supremo Tribunal Federal; e, apesar do aumento recente dos salários reais, muitos reclamam do alto custo de vida. O Brasil pode estar dividido, mas os eleitores têm mais em comum do que imaginam.

Em Petrolina, no Nordeste, é claro para que lado os eleitores pendem. Uma réplica da Estátua da Liberdade, em frente a uma loja de departamentos de um empresário bolsonarista, foi incendiada em setembro, quando Bolsonaro foi condenado. Na estrada até Guaribas, cidade de 4.500 habitantes onde 94% votaram em Lula, surgem pontos de distribuição de gás de cozinha subsidiado, um de seus principais programas.

É o fim da curta estação chuvosa, e a paisagem está repleta de cactos floridos e umbuzeiros carregados de frutos amarelos. Nos oito meses seguintes, não cairá praticamente chuva, e a região volta a ser árida. Cerca de 13% do sertão já está em estágio avançado de desertificação.

“Quando eu era criança, a vida era muito difícil”, diz Obaniel Fernandes da Silva, morador local. “Não tínhamos água, comida, remédio nem escola.” Em uma vila vizinha, mulheres falam ao mesmo tempo, ansiosas para contar suas histórias. “Às vezes ficávamos três ou quatro meses sem tomar banho”, diz Iracy Ribeiro da Rocha, de 72 anos. “Era mais importante usar a água para cozinhar.” Uma mulher levanta a saia para mostrar uma veia dilatada, adquirida quando, grávida, teve de caminhar quilômetros até um poço.

Desde então, uma série de programas governamentais transformou o município, que já foi o mais pobre do Brasil. Quando Lula assumiu o poder pela primeira vez, em 2003, escolheu Guaribas como piloto de dois programas sociais: Bolsa Família e Fome Zero. O primeiro concede uma transferência média mensal aos responsáveis pelas famílias, em sua maioria mulheres. Em troca, os pais devem manter os filhos na escola e vacinados. Apenas famílias com renda muito baixa podem participar. O programa custa cerca de 1,2% do PIB.

O Fome Zero oferece assistência técnica a agricultores familiares e os organiza em cooperativas. O Estado compra a produção e a distribui para escolas e hospitais públicos. Além disso, o governo fornece cisternas e clínicas rurais, algumas com médicos estrangeiros.

Essas iniciativas ajudaram a reduzir drasticamente o número de brasileiros em extrema pobreza. “Se não fosse por ele, teríamos morrido de sede e fome”, diz Rocha sobre Lula. “Quem não vota nele merece um chute!” Após duas décadas de intervenção estatal, muitos jovens estão se tornando independentes. A diretora da escola local se orgulha de ex-alunos que se tornaram advogados, engenheiros e contadores — e em breve, o primeiro médico.

Ainda assim, quase todas as famílias recebem benefícios sociais, além de subsídios para gás e energia. Há poucas lojas e poucos empregos fora do setor público. “Não temos um plano federal para ajudar as pessoas a encontrar trabalho no médio e longo prazo e sair desses programas”, diz Diogo Siqueira, ex-prefeito alinhado a Bolsonaro.

Programas sociais incomodam mais os eleitores de direita do que qualquer outro tema. Cerca de um quarto das famílias brasileiras recebe transferências do governo, e muitas permanecem nelas por anos. Embora muitos beneficiários trabalhem, fraudes também ocorrem.

“No nosso região, as pessoas valorizam família, trabalho e ordem”, diz Odeli Sonda, agricultor em Nova Pádua, no Sul, onde 90% votaram em Bolsonaro. “Sabemos que um governo de esquerda não tem essas prioridades.” Ao fundo, parentes trabalham desde cedo embalando frutas para envio a outras cidades.

Graziela Boscato, produtora de vinho, acredita que o presidente deveria ser escolhido por “quem contribui”, e não por quem depende de assistência. “Os benefícios vêm dos impostos que pagamos.” Agricultores do Sul também se beneficiam de clima favorável e boa infraestrutura.

Ironicamente, foi Bolsonaro quem ampliou significativamente o número de beneficiários e o valor pago, como parte de um aumento de gastos antes de sua tentativa de reeleição. Em 2018, quando foi eleito, havia 14 milhões de famílias beneficiárias e o valor médio era de US$ 48 por mês. Ao deixar o poder, 21 milhões de famílias recebiam uma média de US$ 115.

Somando-se à irritação com os auxílios está a sensação de que os impostos são altos demais e que o dinheiro público é frequentemente desviado. O Estado deveria investir mais em saúde e educação públicas, dizem alguns. “Em vez disso, meus impostos financiam a corrupção.” A diretora em Guaribas concorda: “A corrupção se infiltrou em tudo.”

Brasileiros de todos os perfis estão irritados com escândalos recentes envolvendo o Supremo Tribunal Federal, que revelaram conexões entre magistrados e o líder de uma grande fraude bancária. “O poder que deveria ser nossa última linha de defesa está ainda mais envolvido em corrupção do que nossos políticos, então não há para onde recorrer”, diz Ezequiel Pan, caminhoneiro em Nova Pádua. Em uma pesquisa recente, três quartos dos brasileiros disseram que os juízes do Supremo têm poder demais.

Outra queixa comum é o alto custo de vida. De Nova Pádua a Guaribas, alguns eleitores que antes votaram em Lula dizem que apoiarão Flávio desta vez porque a vida se tornou cara demais. Várias pessoas indicam dificuldade para pagar dívidas; um em cada quatro brasileiros afirma estar atrasado nos pagamentos. A taxa básica de juros é elevada, e o crédito é extremamente caro.

Corrupção, debates sobre o Judiciário e reclamações sobre preços básicos: isso dificilmente caracteriza uma guerra cultural entre extremos políticos. Se um candidato de centro não está surgindo, não é por falta de demanda.

Artigo da The Economist de 02 de maio de 2026.

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