Contrastes na Amazonia
Solos inférteis e isolamento, enquanto projeta uma possível redenção econômica através da retomada estratégica e tecnológica dos seringais locais. Mas o futuro não “quis” assim.
O fracasso - Porto dos Gaúchos, na verdade, é o exemplo histórico de um engano que qualquer nova colonização está sujeita a sofrer, com o perigo de se criarem áreas desertificadas. Num lote aberto no qual a agricultura não se desenvolve, a mata derrubada não volta a crescer. Em 1956. quando Guilherme Meyer, o "Willi", acompanhado por dezenas de famílias gaúchas. abriu aquela que seria a primeira colonização do norte, às margens do rio Arinos, a força de vontade era a mesma que se observa agora em lugares mais recentes. Os primeiros testes com o plantio de milho nas barrancas do rio foram promissores. E o milho é o parâmetro para se medir a fertilidade da terra. Mas, depois, avançando mata adentro, veio a decepção — o cereal só cresceu mesmo naquela barranca onde hoje se localiza o porto da estagnada cidade e. aos poucos, a maioria dos agricultores foi debandando.
Porto dos Gaúchos é o retrato dessa atual situação: casas velhas, um comércio constituído de apenas dois pequenos entrepostos atacadistas e três ou quatro bares quase sempre vazios. O combustível vindo de Cuiabá para a bomba de gasolina continua sendo transportado em barris pelo barco da empresa colonizadora — Conomali.
Para a ligação da cidade à estrada Cuiabá-Santarém faltam 40 quilômetros de construção incerta. Há, ainda, um problema de solução mais remota, a eletrificação.
Se as ligações rodoviárias vão, aos poucos, deixando de ser um entrave ao escoamento da produção nas novas áreas, o fornecimento de energia ainda é extremamente precá-rio. De modo geral são utilizados dispendiosos geradores a óleo diesel.
Nova tentativa - Para manter Porto dos Gaúchos, no fim das contas, sede de município, o governo tem aquinhoado a cidade com alguns benefícios. Lá foram construídos dois armazéns para receber arroz, existe projetada a agência 1003 do Banco do Brasil e o Funrural constrói um hospital.
Mas a expectativa de uma eventual redenção económica está agora voltada para a recuperação dos seringais da Brauco Arinos, empresa de capital alemão. Decorridos doze anos do plantio, 1,7 milhão de árvores ainda oferecem uma produção irrisória de látex, quando o prazo normal de produção efetiva é de oito anos. Em todo caso, a empresa resolveu apostar de novo no projeto. desta vez com um gerente vindo da Alemainha, o economista Hugo Speck. Speck não quer ver repetido o fracasso da Fordlândia. experiência semelhante que a Ford americana tentou implantar quarenta anos atrás na Amazônia - não deram certo o plantio nem a fixação dos trabalhadores no mato.
Entre as iniciativas do gerente alemão, há dez semanas no Brasil, figura um esmerado cuidado com o seringal, que finalmente começa a dar sinal de vida. E, para fixar e treinar trabalhadores que estão sendo arrebanhados em cidades próximas a Cuiabá, está prevista a construção de uma cidade de 500 casas. Não no mato, mas próximas ao núcleo industrial, composto de gerador de energia, serraria, uma futura marcenaria e, é claro, uma necessária prensa de borra-cha.
O negócio possui, hoje, um redobrado estímulo: com a crise do petróleo, o preço do quilo de borracha saltou de 5 para 20 cruzeiros. E o Brasil, curiosamente o berço da seringueira, é atualmente um grande importador do produto.
VEJA 22 de março de 1978.
A trajetória de Ênio Pipino revela a transformação do norte de Mato Grosso, onde o ceticismo político deu lugar a Sinop.
No verão de 1973, acomodado numa espreguiçadeira e entretido em cortar as unhas do pé a canivete, o então governador de Mato Grosso, José Fragelli, não se deu ao trabalho de levantar os olhos para sentenciar: "Tenho pena de você, Enio. Aquele fim de mundo só serve para casco de boi". O alvo do comentário era o paulista Ênio Pipino, um desbravador do Paraná que se dispunha a colonizar 645 000 hectares de terras férteis cobertas de selva a 500 quilômetros ao norte de Cuiabá, a capital de Mato Grosso. Hoje, menos de dez anos mais tarde, a antiga Gleba Celeste, que se estende desde as vizinhanças da rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163) até os limites do Parque Nacional do Xingu, abriga quase 60 000 habitantes distribuídos pelo município de Sinop e os distritos de Cármen, Vera e Cláudia.
Sinop, batizado com a sigla original dos empreendimentos de Pipino — Sociedade Imobiliária Noroeste do Parana -, concentra 45 000 pessoas, transformou-se em sede de bispado e viu surgir a maior usina de álcool extraído de mandioca do país, com capacidade de 150 000 litros diários. "O dinheiro está correndo solto", proclama José Nascimento Costa, comerciante de 26 anos, que nas horas vagas se transforma em exímio tocador de flauta sob o nome artístico de "Tatá". "'Aqui ninguém se preocupa com a inflação", diz. Correndo de boca em boca, essa propaganda de um eldorado na selva continua a atrair colonos e já se acredita que os 120 000 habitantes previstos para o ano 2000 estarão presentes muito antes do prazo. Igual-mente, o ceticismo dos políticos há muito já desapareceu. Em 1980, o presidente João Figueiredo visitou Sinop e derramou lágrimas ao ouvir os versos do declamador Paulo Sérgio Marques, de 15 anos, celebrando "o homem de amanhã. E, há quinze dias, chegou à nova fronteira a caravana do embaixador Roberto Campos na sua campanha para o Senado pelo PDS de Mato Grosso.
TERRA ROXA - Com mais essa vitória, Ênio Pipino consolida definitivamente aos 65 anos uma singular trajetória de criador de cidades — sem dúvida o maior exemplo isolado do país (veja o mapa). Filho de imigrantes italianos, do Piemonte, ele iniciou sua fortuna percorrendo o Estado de São Paulo como correspondente dos bancos da capital, e comprando por conta própria pequenas propriedades na região da Alta Sorocabana. Na época — fim da década de 40— as imensas glebas de terra roxa do vizinho Estado do Paraná ainda esperavam os pioneiros paulistas que a partir de Londrina iriam levar os cafezais até o Paraguai e Mato Grosso.
Pipino foi um dos primeiros a chegar ao norte do Paraná. Com o lucro da revenda de suas propriedades paulistas, adquiriu a bom preço terras virgens e iniciou o loteamento. Mas, prevendo a necessidade de uma infra-estrutura mínima para servir os desbravadores, incentivou desde o início a criação de núcleos urbanos — muitas vezes, apenas o traçado de uma praça de onde as ruas nasceriam espontaneamente. Mas foi dessa forma empírica que se desenvolveram cidades como Terra Rica, Iporã, Iverã, Ademar de Barros, Nilza, Ubira-tã, Iolanda, Formosa do Oeste, Jesuíta, Carajá e Marajó.
No total, Pipino colonizou 250 000 hectares no Paraná, onde vive hoje quase meio milhão de pessoas — e, uma vez esgotadas as possibilidades de criar cidades pioneiras em território paranaense, com a quase completa ocupação do Estado nos últimos quarenta anos, ele saiu em busca de novas ter-ras. A aventura em Mato Grosso começou de forma semelhante. Para somar os 645 000 hectares comprados ali de terceiros, Pipino pagou o seu primeiro alqueire em 1972 a 197,60 cruzeiros e o último a 12 000 cruzeiros. Atualmen-te, 80% dessa área já foram revendidos a 3 880 proprietários rurais e não se encontra mais um alqueire por menos de 100 000 cruzeiros. A experiência paranaense permitiu que o processo, no Mato Grosso, evoluísse de forma mais ordenada.
FRONTEIRA AGRÍCOLA — No planejamento de Sinop, Pipino conseguiu evitar a proliferação de minifúndios impondo um limite mínimo de 25 alqueires para os lotes rurais, todos com água e acesso por estrada. Vem a seguir um cinturão de chácaras com um mínimo de 5 alquei-res. A área urbana, finalmente, está dividida em dois setores delimitados pela passagem da rodovia BR-163. De um lado fica o comércio tradicional, cercado pelas casas de madeira e os primeiros prédios de dois andares. Do lado oposto estão projetados os assentamentos de pequenas e médias indústrias. Esse planejamento conseguiu neutralizar possíveis conflitos de terras na área e acabou dando a Sinop e suas irmãs mato-grossenses uma tranqüilidade rara nas regiões de fronteira agrícola. Com exceção das noites de sábado, quando os filhos dos agricultores engraxam as botas modelo "gos-tosão" para dançar à luz negra do Roller Skate, a única boate da cidade, a vida desaparece das ruas ao cair da tarde.
Logo de manhã cedo, no entanto, grupos atarefados costumam aparecer diante da sede da companhia colonizadora.
São interessados em conseguir empréstimos para os mais variados empreendimentos rurais ou comerciais. Quando Pipino está em Sinop, atende a todos pes-soalmente. Sua decisão é sempre rápida e definitiva, segundo um método que ele utiliza para resolver seus próprios empreendimentos. Foi assim, levado. por uma simples observação do padre Antônio Heidler, um sacerdote alemão que acompanhou os desbravadores, que Pipino decidiu a construção de sua usina de álcool extraído da mandioca.
HÁBITOS SIMPLES - "O padre lembrou-me que na sua terra extraem álcool de batatas e que os russos utilizam a beterraba", recorda ele.
*Resolvi então aproveitar a nossa mandioca." Pipino associou-se à empresa alemã Gebruder Becker, que forneceu o know-how para a transformação de amido em álcool, e partiu para um investimento de 4,5 bilhões de cruzeiros — metade dos quais de investimento próprio. No dia 13 de dezembro de 1981, aniversário de sua esposa, Nilza, a primeira gota de álcool de mandioca brotou dos destiladores.
Viajando constantemente entre Maringá, que rivaliza com Londrina pela supremacia no norte do Paraná, as novas cidades que se expandem em Mato Grosso e Brasília, onde trata vários ministros com intimidade, Pipino continua a formar planos. Agora, convidado pelo governador de Roraima, brigadeiro Ottomar de Souza Pinto, pretende estudar um novo projeto de colonização no território mais longínquo do país. Mas, apesar de sua fortuna, calculada por amigos indiscretos em 20 bilhões de cruzeiros, anda com pouco dinheiro no bolso e cultiva hábitos simples. Seu veículo preferido é uma Kombi, usualmente empoeira-da. Pipino não teve filhos. 'Meus herdeiros", resume ele, "são os habitantes de todas as cidades que ajudei a criar."
HÉLIO TEIXEIRA, de Sinop
VEJA 08 de setembro de 1982.
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