O relógio da parede marcava quase quatro da manhã quando Gabriela, enfim, deixou-se cair sobre o banco de veludo encardido do camarim do Bataclan. O vestido de lantejoulas prateadas, que horas antes reluzia como um céu de estrelas, agora parecia pesado demais, como se carregasse o peso de todas as noites que ela já dançara ali. A maquiagem escorria em fios negros sob os olhos; o rouge, borrado, dava-lhe um ar de boneca abandonada. Nos pés, as sandálias de cetim estavam rasgadas na sola — ela nem se lembrava de quando acontecera. O corpo doía inteiro, das coxas queimando até a nuca, que parecia presa num torno. Os coronéis tinham sido generosos aquela noite, como sempre. Flores, champanhe, notas gordas enfiadas no decote com dedos trêmulos de desejo. O coronel Narciso, o mais velho e o mais apaixonado, ficara até o fim, sentado na primeira fila, os olhos vidrados nela como se fosse a última mulher do mundo. Quando o espetáculo terminou, ele subira ao palco mancando, o chapéu na mão, e...